Este mês, trazemos o romance, Passagem Noturna (2024) (AÇORES 8/2512), de Leonor Sampaio da Silva, um dos finalistas do Prémio Leya (2023), caracterizado por uma escrita poética, onírica e intimista, campo literário de um universo fantástico que potencia uma catástrofe natural -o «sinistro» – isolando do mundo um hotel que fica assim rodeado por uma cratera, motivo ficcional para juntar pessoas desconhecidas umas das outras, ao longo de sete dias, convocando assim também a «tirania do Progresso», num território caracterizado por uma belíssima ambivalência insular, feita de mar e terra, agora caótica, arruinada pela avalanche de voos low cost e pela descaracterização da idiossincrasia própria da pacífica vivência na ilha e de todo um tempo anterior pautado pela «mais inteira felicidade». Dentro do hotel, «as pessoas continuavam agarradas à esperança de haver vida para lá do abismo» (P. 121)
Numa oposição passado-presente, dia-noite, luz-sombra, exterioridade-interioridade, consciente-inconsciente, desenvolve-se o universo ficcional e plurívoco da Menina Sem Sorte Nenhuma, assim chamada desde que a mãe morreu, que cruza e funde a passagem do tempo cronológico com o tempo atmosférico e com o tempo psicológico, viabilizando uma descida ao inconsciente onde se aloja a luz ou a clarificação da sua história pessoal: a Passagem Noturna é assim a viagem onírica através do desconhecido campo de memórias fragmentadas: «O ciclo começa recomeça com um estrondo e um abalo. Há uma porta que se fecha. É de noite.» (p.145)
A Menina Sem Sorte Nenhuma, filha de um típico engenheiro novo-rico e mulherengo, na sua escalada polissémica dentro do hotel, conhecerá a Guia – «calça-se para se reconciliar com o mundo»; «calça-se para se encontrar com a solidão», descendo «agora as escadas que subira horas antes» (p.207):
«Se havia uma certeza a que ela chegara no decurso dos últimos anos era a de que o mundo dito civilizado havia alcançado um tal grau de degeneração que raiava o infinito. E para se desviar de tal corrosão, para se proteger de enferrujar e enegrecer com o resto da humanidade, a Guia decidira seguir, em linha paralela, o caminho contrário.» (p.181).
Este é um romance sobre a perda, a solidão, a condição da mulher, a implosão interior e a implosão do mundo, trazendo-nos a razão de Platão na «alegoria da caverna» para mostrar a verdadeira viagem que falta fazer: «A caverna tem várias salas e as últimas vão sendo cada vez mais estreitas e apertadas. (…) «levanta-te e procura-me». «Deita-te e encontra-me». (p.112)
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Disponível para consulta local
SILVA, Leonor Sampaio da – Passagem noturna. 1ªed. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2025.
BPARPD AÇORES 8/2512
Outros escritos de Leonor Sampaio da Silva, disponíveis para empréstimo domiciliário
SILVA, Leonor Sampaio da – ABN da pessoa com universo ao fundo. 2ª ed. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2018.
BPARPD EMP AÇORES 82-82 SIL/abn
SILVA, Leonor Sampaio da – A babel literária de José do Canto. [Ponta Delgada]: Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 2020.
BPARPD EMP AÇORES 929 CANTO, J. SIL/bab
SILVA, Leonor Sampaio da; PAZ, Orlando – Mau tempo e má sorte: contos pouco exemplares. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direção Regional da Cultura, 2014.
BPARPD EMP AÇORES 82-34 SIL/mau