«Em Ponta Delgada, a notícia da minha prisão caiu que nem uma bomba. … . Eu sentia-me mal, quando saía à rua, na minha cidade natal. Era olhada com estranheza pelas pessoas conhecidas ou não, e algumas mudavam de passeio para não me falar.»
(Miranda, 2003: 56-57)
Para além da sua biografia e de diversos estudos científicos, publicados após a conclusão do doutoramento na década de oitenta, Sacuntala de Miranda (Ponta Delgada, 1934 – Lisboa, 2012) escreveu um livro de memórias, de leitura indispensável: trata-se de Memórias de um peão nos combates pela liberdade[1] (BPARPDL, EMP AÇORES 82-94 MIR/meme x.2). Neste livro, escrito na primeira pessoa, o que confere uma tonalidade intimista à expressão viva da memória, Sacuntala, cujo nome é de origem hindu, significando a que é protegida pelos pássaros – pássaro em hindu diz-se «shakunta» -, dá a conhecer uma vida de combate em prol da liberdade que o próprio nome subscreve: o pai, Lúcio de Miranda, que nascera na Índia em 1904, escolheu , para a sua filha, um nome que garantisse um vôo a toda a amplitude dos desígnios de Sacuntala, vontade essa também expressa pela mãe, Fedora, açoriana que se apaixonou por Lúcio de Miranda, logo que aquele desembarcou em Ponta Delgada, corria o ano de 1930, passando a dar aulas de Matemática no Liceu Antero de Quental, embora não por muito tempo, uma vez que opondo-se à colonização de Goa pelos portugueses, foi ameaçado pelo regime ditatorial de Salazar que o quis obrigar a assinar um documento subscrevendo a colonização de Goa. Naturalmente, Lúcio Miranda, defendeu a libertação imediata dos goeses e, antes que o expulsassem, abandonou o liceu e refugiou-se em Londres, corria o ano de 1955. Fedora, a sua mulher e cúmplice foi lá ter, passado pouco tempo, enquanto Sacuntala concluía a licenciatura em Lisboa. Deste modo, em 1958, já com o curso, pediu a licença para ensinar, que não lhe foi concedida, por ser considerada rebelde. Depois de ter integrado o MUD e de ter participado activamente na campanha a favor da candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, desencantada com a repressão e com a opressão em Portugal – em 1953, esteve três dias presa em Caxias -, partiu, no ano de 1960, para 15 anos de um longo exílio em Londres, onde foi viver junto da família que já se encontrava lá, inclusivamente o irmão Álvaro de Miranda:
«Uma bela tarde, em 1960, deixei Portugal e parti para um longo exílio em Londres. …. Alguns amigos vieram despedir-se de mim a Stª Apolónia, donde parti, em carruagem de 2ª classe, no Sud Express, que me levaria até Paris, ponto em que deveria tomar outro comboio para Londres.» (Miranda, 2003: 117)
Este livro de memórias dá-nos ainda a conhecer a dinâmica e corajosa ação contínua de Sacuntala contra a ditadura. Mesmo em pleno exílio, criou sindicatos, apoiou os refugiados, os exilados e os imigrantes. Para além disso, mesmo longe de Portugal, participou em diversas campanhas pró-democracia. Quando, finalmente, após a Revolução dos Cravos, teve luz verde para regressar ao seu país, não poderia estar mais feliz:
«Os seis dias que passei neste Portugal, finalmente liberto e ensaiando os primeiros passos no caminho da democracia, são indiscritíveis…. Na sede da C.D.E., aonde fui ter à chegada, dei de caras com Mário Barradas, que não via há vinte anos e abraçámo-nos a chorar.» (Miranda, 2003: 188)
Direitos de autor do texto: ÂDA
Direitos de edição do texto: BPARPDL
Disponíveis para empréstimo domiciliário
MIRANDA, Sacuntala de – Memórias de um peão nos combates pela liberdade. Lisboa: Salamandra, 2003.
BPARPD EMP AÇORES 82-94 MIR/mem
BPARPD EMP AÇORES 82-94 MIR/mem ex.2
Disponíveis para leitura presencial
MIRANDA, Sacuntala de – Memórias de um peão nos combates pela liberdade. Lisboa: Salamandra, 2003.
BPARPD AÇORES 8/1142
BPARPD ABC 2537 RES
[1] Miranda, Sacuntala de (2003). Memórias de um peão nos combates pela liberdade. Lisboa: Salamandra.