Agora que assinalamos o centenário do nascimento de Luís de Sttau Monteiro (1926- 1993), tratando-se de Felizmente há Luar! (BPARPDL, NC 5565 RES) um texto dramático de referência na Literatura Portuguesa e, não por acaso, ensinado no ensino secundário, teríamos de trazê-lo aos nossos destaques. Com efeito, este texto dramático, publicado em 1961, no mesmo ano em que teve início a mortífera Guerra Colonial, então ditada pelo Estado Novo, foi imediatamente proibido pela censura. Apenas, após o 25 de Abril, nomeadamente, em 1978, conseguiu Sttau Monteiro levá-lo à cena no Teatro Nacional. Anteriormente, apenas conseguiu representá-la em Paris, no ano de 1969.
Este texto caracteriza-se pelo distanciamento Becketiano que o dramaturgo usa como forma de deslocar o tempo do texto dramático, a fim de poder denunciar a repressão, a opressão, as injustiças, tudo o que caracterizava um Portugal bafiento do Estado Novo. Deste modo, o tempo histórico da obra é o início do século XIX, colocando o democrata, homem de Liberdade, General Gomes Freire como personagem principal: note-se que o general foi executado a 18 de outubro de 1817 (a pena de morte seria abolida apenas três anos mais tarde). Ora, neste belíssimo texto dramático, tal como durante o Estado Novo, existem os cúmplices e adjuvantes da democracia e da hora da Liberdade, coadjuvantes de Gomes Freire – Matilde, Rita e Manuel – Matilde, «a menina da saia verde»; a recorrência da côr da saia ao longo do texto, lembrando a importância da esperança («Olha, meu amor, vesti a saia verde que me compraste em Paris!»). Também cúmplices e lutadores ao lado do general, naturalmente, Sousa Falcão e o povo-, mas também existem os delatores e, claro, os representantes dos vários poderes, político e religioso e de como se entendiam.
De um universo simbólico imprescindível ao entendimento do que se pretende dizer, desde as cores, aos tambores, etc, há uma frase que prevalece e atravessa qualquer tempo, qualquer que seja o modo – mais justo ou mais cruel – em que a vida se desenrola. Esta frase é um continuo motor de esperança e de resistência, de luta a favor da Liberdade: «Felizmente, há luar!» Todavia, é importante registar a dualidade do significado desta expressão:
- Miguel, preparando e ansiando a execução de Gomes Freire:
Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-lhes ficar na memória durante muitos anos… Sempre que pensarem em discutir as nossas ordens, lembrar-se-ão do cheiro… […] É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar!
Mas, não esqueçamos, no âmbito da ambivalência do significado desta expressão, a esperança de Matilde, quando percebe que o marido será executado e, de seguida, o corpo será atirado à fogueira. Nesse momento, Matilde, agora viúva de tanto amor, diz:
Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim… Felizmente – felizmente há luar!
Texto (direitos de autor) -Â.de A.
Edição -BPARPDL, Abril de 2026
Disponíveis para empréstimo domiciliário
MONTEIRO, Luís de Sttau – Felizmente há luar!. Lisboa: Edições Ática, imp. 1978.
BPARPD EMP 82(469)-2 MON/fel ex.2
MONTEIRO, Luís de Sttau – Felizmente há luar!. [Lisboa]: Areal, 1999.
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BPARPD EMP 82(469)-2 MON/fel ex.3
MONTEIRO, Luís de Sttau – Felizmente há luar!. Lisboa: Areal Editores, 2001.
BPARPD EMP 82(469)-2 MON/fel
BPARPD EMP 82(469)-2 MON/fel ex.4
MONTEIRO Luís de Sttau – Felizmente há luar!. [S.l.] : Areal Editores, 2008.
BPARPD JUV 82-2 MON/fel
BPARPD JUV-D 82-2 MON/fel ex.2
Disponível para consulta local (1.ª edição)
MONTEIRO, Luís de Sttau – Felizmente há luar!. [S.l.] : Jornal do Fôro, 1961. – O ex. contém dedicatória do Autor a Natália Correia.
BPARPD NC 5565 RES