John Steinbeck (1902-1968), vencedor do Prémio Nobel em 1962, além do grande romancista que conhecemos, foi correspondente de guerra e escreveu sobre a vida dura dos emigrantes. A literatura deste autor sucede à ficção e à poesia que tão bem caracterizou os loucos anos vinte nos Estados Unidos da América : autores como Fitzgerald, Dos Passos, Hemingway, entre outros, dão conta do tempo verdadeiramente hilariante e da agonia interior dos artistas perante a mais completa morte da identidade dos lugares e da forma de vida: não nos esqueçamos a forma drástica como a mecanização veio aniquilar todo o trabalho manual, criando o desemprego que levou milhares e milhares de famílias a abandonarem os campos onde viviam há três décadas. Como sabemos, os loucos anos XX desembocaram na Grande Depressão (1929-1936). A este facto, juntou-se a tempestade de areia , conhecida por Dust Bowl , que provocou a seca nos campos (1934-1940), especialmente nas planícies altas norte-americanas: «Os homens postavam-se junto das suas vedações, a olharem para os milheirais devastados, agora a secarem inteiramente.» (Steinbeck, s/d: 9). É precisamente este o contexto económico e social do livro que vos trazemos este mês, As vinhas da Ira (1939) (AP1746RES), premiado com o Prémio Pulitzer, no ano seguinte ao da publicação. Foi exatamente o flagelo então vivido por imensas famílias, pequenos proprietários de terras que tiveram de abandonar tudo e partir, entregues a si próprios, na insistente procura e na ilusão da «terra do leite e do mel» em terras do Oeste, na Califórnia:
«O Sol surgia agora no topo das montanhas e brilhava sobre os tetos de chapa ondulada dos cinco departamentos sanitários que havia no acampamento. Lançava os seus raios sobre a lona cinzenta das tendas e no chão varrido da rua. O acampamento despertava. O lume ardia nos fogareiros de campanha feitos de latas de querosene e de chapas de ferro. O cheiro do fumo pairava no ar. Abriam-se as tendas e apareciam homens nas ruas. Em frente da tenta dos Joads, a mãe olhava a rua para cima e para baixo.» (Steinbeck, s/d: 313)
Ora, é desta dupla realidade que nos fala o livro, trazendo para a ficção, através da narrativa da família Joad, a história do povo norte-americano e o eterno mito do sucesso que, desde o início do século XVII, tomou conta dos desígnios, das atitudes e, acima de tudo, da essência de um povo que declina o que verdadeiramente é: uma amálgama de culturas, povos, etnias, formas de arte, línguas, tradições e costumes fascinantes, a começar pelos nativos que foram colonizados.
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Referências bibliográfica
Steinbeck, John (1939). As vinhas da ira. Prémio Pullitzer (1940). Virgínia Motta, trad. Lisboa: Livros do Brasil (segunda edição portuguesa s/d).
Disponível para consulta
Steinbeck, John – As vinhas da ira. Lisboa : Livros do Brasil, [19–].477, [2] p.